"Artista que não se posiciona ou tem medo, ou não entende o que é a arte"; Johaine lança clipe com equipe de 25 mulheres


Johaine é uma cantora, compositora e guitarrista Curitibana. A conheci pela internet em meados de 2017, logo depois de ela lançar seu primeiro EP Hedonismo, mas ela lança músicas e clipes como artista solo desde 2016. 

Logo de cara, me apaixonei pela qualidade e a sonoridade de suas músicas. Johaine esbanja autenticidade, desde seu visual - sidecut, sombra preta e braços tatuados - até sua voz potente e agressiva, mas que sabe ser leve e sedutora quando quer. Uma vez brinquei com ela que ela era tipo uma "Lzzy Hale brasileira", tanto por seu surpreendente alcance, como por seus vibratos e drives, executados perfeitamente com um bom gosto que raramente é visto no estilo. 

Mas ela dispensa comparações. Tive a oportunidade de vê-la ao vivo na Avenida Paulista em janeiro desse ano. Provavelmente o último show que assisti antes da quarentena, e tive a grata certeza de ver uma mulher que sabe exatamente quem é e o que quer comunicar, a quem quer que pare para ouví-la. Ela não tem medo de dividir a atenção no palco - no dia, contava com uma baterista, mas sempre trabalhou com mulheres instrumentistas nos palcos e no estúdio - e talvez por isso sua estrela brilhe ainda mais.

Em janeiro de 2019 - muito antes do Rock de Boneca existir - ela lançou o clipe de Compulsão, trazendo uma sonoridade mais próxima do rock/pop de bandas de arena como Imagine Dragons e Coldplay. Mas o que mais chamou a atenção, foi o fato de - além de ser uma artista LGBTQ+ que fala abertamente sobre paixão, desejo e sexo - ela ter escolhido trabalhar com uma equipe totalmente feminina na produção do vídeo do single (cerca de 25 mulheres, passando pela direção e edição, você consegue ver o making off clicando aqui).


Antes tarde do que nunca, conversamos com ela sobre esse processo, as diferenças de se trabalhar com homens e mulheres, representatividade e interseccionalidade e o futuro de sua bem-sucedida carreira musical.

RckdB: Antes de tudo, muito obrigada por aceitar dividir sua visão conosco! Muitas pessoas questionam a questão da representatividade feminina, pois argumentam que na música, sempre tivemos grandes divas em evidência, supostamente sendo protagonistas de sua arte. Pra você, qual a importância de termos mulheres também por trás da câmeras? O que te levou a querer trabalhar num projeto só com mulheres?

Johaine: Primeiro de tudo, agradeço muito pelo convite e pelo espaço! Vamos lá. Creio que desde que o mundo é mundo, a mulher precisa batalhar por espaço, principalmente em ofícios que, socialmente impostos, não são comuns às mulheres. Depois de muitos séculos as mulheres conquistaram mais notoriedade no ramo artístico, mas vemos ainda que a maioria é composta por homens. Históricos contam que a irmã de Mozart era muito mais brilhante que ele, mas por ser mulher, foi obrigada a se casar e largar a música. Quantas artistas incríveis o mundo deixou de conhecer por serem mulheres?

Se analisarmos os trabalhos técnicos dentro da arte são, na maioria, funções desempenhadas por homens. Isso ocorre na música, cinema, teatro, etc. Pense em profissões como: operador de câmera, contrarregra, produtor de objetos, diretor de fotografia, maestro, diretor de cena, entre outros. Quantas mulheres estão inseridas nessas profissões? Pouquíssimas. 

Foi por conta disso que a ideia de ter um set 100% feminino ficou ainda mais forte. A idealizadora de tudo foi a diretora Melissa Sharon, da produtora MovieOn, que me fez o convite e angariou toda a equipe audiovisual para executar o videoclipe. Mais importante do que o resultado do videoclipe, foi o processo. Todas nós, pudermos entender a importância que desempenhamos em nossos ramos e da necessidade dessa representatividade feminina. 


RckdB: Você costumava trabalhar com o diretor Nyck Maftum e uma e equipe majoritariamente masculina. Você sentiu alguma diferença entre trabalhar com homens ou com mulheres? Você pretende priorizar mulheres nos seus próximos trabalhos?

Johanei: O Nyck é e sempre será uma referência como diretor de vídeo para mim. Quando houve essa oportunidade, o próprio Nyck incentivou e ajudou a selecionar a equipe. A maior diferença que senti ao trabalhar com uma equipe inteira de mulheres foi a organização e o silêncio no set de filmagem. Não teve um atrito, não teve ninguém falando mais alto, nem tentando impor uma ideia. Já vi muitos homens competindo entre si, e pior, querendo deixar as profissionais mulheres em segundo plano, como se elas fossem "assistentes". Eu fiquei surpresa com o nível de profissionalismo e respeito que ocorreu, inclusive das diversas alunas de cinema, que fizeram parte da equipe, que trabalharam como profissionais maduras e seguras. Costumo dizer que a segurança da mulher é imbatível. Não teve tempo ruim, não teve nada que nos bloqueou ou parou. E quando algo saía do script, a solução vinha rapidamente. 

Pros próximos trabalhos já estou em contato com algumas profissionais que participaram do videoclipe, e com certeza quero priorizar mulheres. Inclusive, estou produzindo faixas novas com uma produtora, o que tem sido bem interessante.


RckdB: Ainda falando sobre essa questão de representatividade, é muito apontado que, por mais que mulheres tenham tido um pouco mais de espaço nos últimos anos, ainda temos uma defasagem muito grande quando fazemos alguns recortes, falando de mulheres negras, indígenas ou asiáticas, por exemplo. Na sua opinião, por que isso acontece, e qual o papel dos artistas na solução desse problema?

Johaine: Essa defasagem é histórica, é cultural. E é péssima. No Brasil, tivemos o maior período de escravidão das Américas, e quem acha que tá tudo bem agora, não conhece a história do próprio país. Quaisquer minorias continuam lutando por reparações que nunca foram atendidas. Artista que não se posiciona: ou tem medo, ou não entende o que é a arte. Na arte eu aprendi o que é lugar de fala, consciência de classe, cotas, protesto, apoio. A gente tem que ler, tem que se informar, pra na hora de uma fala, uma entrevista, um debate, saber o que falar e influenciar de maneira positiva as pessoas que seguem seu trabalho. Arte é conexão. O artista tem que conectar suas ideias com seu público.


RckdB: Hoje em dia vemos muitas pessoas se queixando de como artistas se posicionando politicamente, e dizendo que "política e arte não devem se misturar". Como você vê a relação do artista com política?

Johaine: Hoje vemos grandes artistas utilizando suas contas de redes sociais para influenciar pessoas. Tanto pro bem, quanto pro mal. A pressão de artistas já derrubou muita MP e lei que prejudicariam a arte. A força do artista tá aí. Eu já deixei de seguir muitos artistas que gostava, pois quando foram se posicionar, eram elitistas, conservadores e preconceituosos. Pra mim, esse é o papel do artista no Brasil e no mundo: dar voz e também serem as vozes das causas das minorias, defender sempre a classe artística, a liberdade de expressão, respeitar toda forma de arte (mesmo que esteja distante da própria realidade), se posicionar contra qualquer totalitarismo e ideia que flerte com o fascismo. Estamos vivendo tempos sombrios no Brasil, resta a arte trazer um pouco de luz. 


RckdB: Você gostaria de deixar alguma mensagem pra meninas que estão começando a produzir conteúdo, seja dentro da música ou do audiovisual?

Johaine: Claro! A mensagem que eu deixo é de que não existe nenhum trabalho que seja exclusivamente masculino. Vocês vão encontrar um nicho majoritariamente masculino, podem sentir na pele o que é o machismo, mas usem isso como um combustível para quebrar esses paradigmas, se destaquem em seus trabalhos, estudem e façam acontecer. Queremos que essas estatísticas mudem com o passar do tempo, e que nos palcos a gente tenha mais musicistas, técnicas de som, produtoras. Que nos cinemas a gente tenha mais diretoras, operadoras de câmera, sonoplastas, compositoras. Precisamos conquistar estes espaços, e que cada uma que conquiste, sirva de inspiração para outras. Se apoiem! 


RckdB: Muito obrigada pela participação! Desejamos todo o sucesso de mundo pra você, e que muitas mulheres se inspirem na sua arte!

Veja o clipe de Compulsão:
Texto e entrevista por Nina "Haney" Furtado. Todos os direitos reservados a Rock de Boneca.

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