Deze Rezende dispara: "A desvalorização da nossa cultura não é algo exclusivo do meio headbanger"



A dupla campineira Fenrir's Scar formada pelo multi-instrumentista e vocalista André Baida e pela cantora Desireé Rezende precisou pausar por tempo indeterminado as gravações do segundo álbum, "Love | Hate | Hope | Despair" devido a pandemia do COVID-19 e o distanciamento social.

Durante esse período decidiram lançar o lyric vídeo da canção "Fearless Heart", primeira faixa do homônimo álbum de estréia de 2017.

"Fearless Heart conta a história do lobo Fenrir da mitologia nórdica. Ao pesquisar sobre o assunto, descobri que alguns mitos como o lobo Fenrir e o Ragnarok estão relacionados com a forma que os antigos nórdicos enxergavam a astronomia e fenômenos como cometas e eclipses", comenta a letrista Desireé.

"Além disso, contamos a história com a perspectiva do lobo Fenrir, que geralmente é tratado como um vilão ou monstro. Na nossa visão ele foi enganado pelos deuses, e condicionado por eles a se revoltar, e que no fim sua força e seu coração sem medo, o irá libertar", explica o músico André Baida.

A banda conversou com o Rock de Boneca em uma entrevista exclusiva sobre mitologia nórdica e a onda de conservadorismo no meio headbanger.


RCKdB: O nome da banda significa algo como "a cicatriz de Fenrir", certo? Qual a relação de vocês com a mitologia nórdica e como foi a escolha do nome?


Deze: A ideia do nome foi do André, inspirada em uma música da antiga banda de power metal dele, o CounterParts. A música em questão é a "Fenrir's Last Howl", que posteriormente escolhemos gravar no primeiro álbum.

Quando começamos a compor o setlist do álbum não tinha nenhuma música que falasse da mitologia nórdica e eu senti que devido ao nosso nome deveríamos ter algo do tipo, e acabei procurando estudar mais a respeito e acabou saindo a Fearless Heart. No fim, decidimos gravar a "Fenrir's Last Howl" com outro arranjo e acabamos não só com uma, mas com duas músicas inspiradas na mitologia nórdica, em especial no lobo Fenrir (risos).

Eu confesso que não conhecia tanto da mitologia nórdica antes da banda, apenas Thor, Loki e Odin que são os deuses mais populares. Mas como fui atrás para conhecer mais, acabei me apaixonando, principalmente pelos "vilões" como Fenrir e Hel.


André: Acaba sendo um paralelo do tipo " André e sua jornada de quase 30 anos como músico; Fenrir e seu sacrifício final".


"Tudo que é fora do 'padrão' é considerado ofensivo aos olhos da maioria" André Baida



RCKdB: Vocês disseram que, ao contrário do senso comum, acham que o lobo Fenrir não é um vilão, mas foi enganado. O que os levaram a chegar a essa conclusão?

Deze: Na lenda há uma profecia que dita que o lobo Fenrir seria o grande causador do Ragnarok, que é algo como o apocalipse da mitologia nórdica. Devido a essa profecia os deuses enganam Fenrir, o desafiam a quebrar correntes para testar sua força, até conseguirem prende-lo de fato. Toda história tem dois lados, e o fato dele ser um monstro aos olhos dos outros, foi temido e julgado.

Tem um livro que me ajudou a ver desse lado, se chama "O Evangelho de Loki" de Joanne Harris, que conta a mitologia nórdica pela visão de Loki, pai do lobo Fenrir.


André: Na verdade é uma interpretação pessoal, como na nossa sociedade, tudo que é fora do “padrão” é considerado ofensivo aos olhos da maioria. Sejam obesos, anoréxicos, homossexuais, pessoas com deficiências físicas ou cognitivas... Tudo fora do padrão - o “diferente” - causa uma reação nas pessoas. E, pode ter certeza, eu estou desse lado da sociedade. Por isso essa interpretação/relação.

Sobre ser enganado, foi literalmente isso, os deuses fingiram o aceitar apenas pra engana-lo e ganhar sua confiança, para na primeira oportunidade apunhala-lo. Mas como disse, essa é uma visão pessoal. Pessoas terão diferentes opiniões a respeito.

"A desvalorização da nossa cultura não é algo que vem de hoje, nem é algo exclusivo do meio headbanger" Deze Rezende


RCKdB: Nos últimos meses, tem circulado nas redes sociais o fenômeno do "Viking Tupiniquim". O que vocês pensam sobre isso?

Deze: Como o metal veio da Europa, e a maioria das referências que temos vem de lá, acho natural acontecer essa ligação com a cultura deles. Mas isso não vem só da música, mas com a cultura pop em geral, através de Hollywood e séries de TV como Vikings e Last Kingdom.

Mas não vejo nada de errado nas pessoas apreciarem outras culturas, todo mundo é livre para apreciar o que quiser, mas acho errado depreciar a nossa cultura, ou qualquer outra por simplesmente "não gostar" ou desconhecer.

André: Antes de mais nada, vou aproveitar o espaço pra desmistificar uma análise rasa de algumas pessoas sobre a gente com base única no nosso nome. Nós não somos e não nos consideramos “Viking Metal”, nosso som não é folk, não é celta... Nosso som é alternative gothic rock e nossas letras são a nossa verdade nua e crua, sem filtros. É o que somos. Um casal, abusado na infância, oprimido nos padrões da sociedade, viciado em séries e videogames. E é exatamente sobre isso que conversamos através da nossa música com quem estiver disposto a ouvir.

Mas se o cara quer tomar hidromel, quer comemorar St Patricks Day, Valentine’s Day, comprar na Black Friday, ou na Cyber Monday, se tatuou Cavaleiros do Zodiaco, ou tatuou Harry Potter, não significa falta de amor ou desvalorização da cultura brasileira per se, é apenas reflexo da identidade cultural de cada um.


RCKdB: Vocês acham que essa onda de desvalorização da cultura brasileira, e ultra valorização de culturas, sobretudo europeias, ajudou a construir o típico "headbanger conservador"?

Deze:
Eu acho que o buraco é mais em baixo. A desvalorização da nossa cultura não é algo que vem de hoje, nem é algo exclusivo do meio headbanger. São séculos de sucateamento de educação e negligência dos governantes com seu povo. Herança de um Brasil escravocrata e desigual. E por isso há uma certa ignorância e até desconhecimento da nossa cultura.

Acredito que é a ignorância no geral que cria esse conservadorismo e fanatismo nas pessoas.

André: Esse é um assunto pra muitas, muitas e muitas horas de conversa e impossível consolidar o que eu penso sobre em alguns parágrafos (risos). No geral, acredito ser mais amplo. O conservadorismo e o radicalismo que assola nosso país é o reflexo do emburrecimento validado pela sociedade de pelo menos 3 gerações formadas na progressão continuada de nossas escolas. As pessoas foram desestimuladas ao hábito da leitura, ao diálogo, e quando isso acontece aparecem donos da verdade, pessoas dispostas a defender sua ideologia como ponto de vista único e consequentemente, irrepreensível.

É importantíssimo saber de onde viemos, como foi forjada a cultura do nosso país e respeitá-la, mas é quase impossível, diria improvável, que as pessoas não absorvam a pluralidade cultural existente em quase todo mundo. Nos tempos sombrios que vivemos, qualquer brilho de alegria que apareça na vida das pessoas deve ser valorizado, não importa a origem.

Confira o Lyric Video de "Fearless Heart":


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