[Opinião] Nós já entendemos que você quer ser um rockstar!


Cresci assistindo clipes super produzidos na MTV e pensando que a coisa mais legal do mundo era ser a Amy Lee. Enquanto millenial dos anos 90, eu era uma criança que via Avril Lavigne, Paramore e Linkin Park tocando pra estádios lotados ao redor do mundo. Lembro de ir ao Pacaembu assistir o RBD da arquibancada mais distante na esperança de que eles iam conseguir ler os cartazes que eu e minha prima preparamos na noite anterior.

Falando em artistas nacionais, por influência dos meus pais, tive contato com bandas de rock muito populares como Engenheiros do Hawaii, Titãs e Paralamas do Sucesso. Na adolescência, CMP22, Fresno, NX Zero e seus equivalentes também estouravam. Você não precisa necessariamente ter sido fã desse pessoal para concordar.

Do meio da adolescência até a fase adulta foi quando comecei a me interessar mais por música pesada. Acho difícil que qualquer pessoa que tenha passado por esse cenário não tenha assistido pelo menos um vídeo de um mega show no Wacken de uma banda que gosta muito. Essas referências criam um ideal de que o sucesso é atingir milhões de pessoas e ter muito dinheiro. Eu jurava, aliás, que as meninas do Rouge eram riquíssimas, até descobrir a verdadeira história, anos atrás.

Apesar de tudo isso, nós raramente paramos para refletir a respeito da trajetória de todas essas pessoas. A realidade do país onde nasceram, o contexto social no qual se encaixavam, os privilégios que as contemplam e as milhares de vezes que precisaram ceder a decisões que não cabiam apenas a elas. Mais importante que tudo isso, o que é sucesso?

O estrelato a algumas parcelas de distância


Nas últimas duas décadas a maneira de se consumir música mudou drasticamente. Hoje são os streamings e não os discos físicos que estão presentes na rotina das pessoas. Nessa onda de mudanças, uma infinidade de cursos prometendo te ensinar como fazer sucesso. Pessoalmente entendo que music business é algo extremamente importante. Sério. Fiz não um, nem dois, mas três cursos a respeito. Cada um com duração de cerca de seis meses. Então juntando esse 1 ano e meio de formação, digo sem pensar duas vezes que muito conteúdo não se aplica à realidade de uma banda underground de metal sem contatos.

Ainda assim, muitos acreditam que floodar a timeline de todas as pessoas que conhecem vai trazer resultados extremamente positivos e que, postando todos os dias uma foto ao meio-dia, seu fandom vai crescer, porque afinal de contas, você é consistente. Se tenho credibilidade para dar uma dica a respeito disso é que tudo o que você ouve  deve ser filtrado. Jamais levado ao pé da letra. Bom senso aqui é chave. Quem é o seu público? Como ele se comporta?

Não estou dizendo essas coisas porque tenho a ilusão de que a minha banda seja absurdamente famosa - longíssimo disso. É por uma questão de saúde mental mesmo. Não é incomum ver as pessoas criando metas como fazer uma turnê na Europa no primeiro ano de banda ou abrir o show de [insira aqui qualquer banda estrangeira minimamente relevante]. Devemos sempre ter em mente que isso é um processo. Falo da minha experiência pessoal e de como escolhi lidar com isso, a fim de não enlouquecer. 

Você acompanha a trajetória de bandas da mesma época e contexto social que a sua? Entende como a sua banda favorita é diferente da sua? Se inspira em bandas grandes do seu próprio país? Ou o sonho está sempre em outro continente? Você tem as ferramentas necessárias para chegar onde quer? Quantos discos você quer ter lançado nos próximos 10 anos? Por que essas pessoas deveriam gostar do seu show? Você usa um tempo pra desligar de tudo isso e se compara a algo que faz sentido dado seu momento?

Nem tudo o que aquele produtor que trabalha com aquela banda enorme que nasceu em berço de ouro falou vai se aplicar pra você. Não importa o quão influente seja uma pessoa, sempre questione ela. Até onde esses “investimentos” que eles adoram aconselhar te beneficiam? Temos que ler todas as linhas, fazer inúmeros exercícios de autoconhecimento e confiar nos nossos companheiros na hora de tomar decisões. A receita de bolo que aquele YouTuber te mostrou é comprovada pelo quê?

Eu trabalho com programação. No meu dia-a-dia, lido com muitas regras binárias. Ou é ou não é. Zero ou um. As pessoas definitivamente não funcionam assim. Na minha opinião, feeling e carisma são elementos cruciais pra uma boa conexão com o público. Ao mesmo tempo eu não faço ideia de como um curso poderia ensinar isso.

A incessante busca por relevância

Quem disse que ter uma banda é como estar casado com outras N pessoas estava certíssimo! É um processo extremamente social e, por isso, absurdamente difícil para mim. Sei que essa não é a realidade de todos, mas no Inraza prezamos pelo bem-estar dentro da banda antes de qualquer coisa. Se não estamos bem internamente, então paramos tudo até resolver. Falamos na cara, cobramos uns aos outros, discutimos, pensamos em largar e depois nos resolvemos. Não vou falar pelos meninos aqui, mas pra mim isso tudo vale a pena por conta da amizade que criei com eles. Não fosse isso, não faria mais sentido.

É muito fácil apontar dedos e tirar de si a responsabilidade de fazer um trabalho melhor (“como assim, EU não sou perfeito?”), de pensar no seu posicionamento para com as outras pessoas (“eles não me procuraram, então não falei nada...”). A realidade é que ninguém te deve nada. Sei que dói ler uma coisa dessas, mas convívio é algo que acredito que deva ser genuíno. Nem todo mundo vai se dar bem e nem todo mundo que não te chama o tempo inteiro te odeia. Na verdade, as pessoas talvez nem pensem sobre você, afinal de contas elas têm uma vida que você não conhece com prioridades que você também não conhece. É bastante egoísta cobrar que todos estejam sempre disponíveis pra te atender. Dito isso, respeito acima de tudo.

Falei tudo isso pra chegar num ponto bastante delicado também que é a convivência e criação de laços com outras bandas - que eu gosto de me referir como “colegas de profissão”. É inegável que existe muito ego no meio artístico. Temos medo da rejeição, queremos superar expectativas e surpreender pessoas. Muitos querem aplausos, outros apenas se divertir. O ponto aqui é que as coisas nunca vão ser um mar de rosas. Apesar disso, nós devemos nos respeitar. Você fica procurando defeitos no trabalho dos outros pra se sentir melhor? Tem coragem pra admitir que faz isso?

No metal especificamente, estamos num nicho. A quantidade de pessoas que se interessa pelo gênero é uma, já a de pessoas que buscam artistas nacionais e independentes, é outra bastante menor. A culpa é do público, do “brasileiro burro que só ouve funk”? Eu honestamente acho que não. Na verdade, acho absurdamente problemática essa crítica a outros estilos, mas isso é papo pra outro post. Quem me conhece sabe como me posiciono a respeito do assunto.

Como eu disse anteriormente, é fácil apontar dedos. Os artistas no Brasil realmente precisam de mais reconhecimento, as bandas autorais mais ainda. Mas culpabilizar um público que não tem obrigação nenhuma de “te ajudar”, como muita gente gosta de apontar, é bastante ingênuo. Eu acredito de verdade que a conexão com o público deva ser genuína. E isso quer dizer que a pessoa não está fazendo algo por mim porque sente pena, mas sim porque quer. É uma enorme satisfação saber que eu consegui me conectar verdadeiramente com aquela pessoa. Não quero migalhas, mas sim realidade. Me esforço todos os dias pra isso economizando um pouco do meu honesto salário pra colocar na banda, me conectando com pessoas com ideias parecidas com as minhas e levantando debates, contribuindo para iniciativas nas quais acredito, trocando experiências e estudando. Se eu passar a minha vida inteira tocando pra 10 pessoas por causa disso, que seja. São 10 pessoas que valem o mundo. E pra mim, isso é sucesso.

Expectativa X Realidade

A intenção desse texto não é julgar o que é certo ou errado, mas promover uma reflexão a respeito das nossas expectativas versus a realidade. Já dizia Nina Simone: “It's an artist duty to reflect the times” (É obrigação do artista refletir o tempo em que vivemos”). A música é de fato um reflexo da nossa época, mas também não é só por causa disso que você precisa abdicar do seu discurso apenas porque ele não entra nessa caixa; muito menos que quem está falando das pautas “em alta” esteja as usando apenas para se beneficiar. É minha crença pessoal que devemos retratar aquilo com o que nos conectamos - seja um discurso fortemente político ou histórias fantasiosas. O importante é ser verdadeiro e acreditar no que faz.

De um lado bandas com 5 anos que estouram mundialmente. Do outro, bandas com 10 não saem da própria cidade. Quer dizer que a segunda falhou? O que cada uma almejava? Como ambas trabalharam? Quantos obstáculos tiveram que superar? Como a sociedade encara o discurso de cada uma? A trajetória das pessoas é diferente. Cada banda tem seu mérito pelo que conquistou e se esforçou para. Devemos entender que cada um fez o seu melhor para aquele momento em vez de penalizar uns aos outros. É tudo uma questão de respeito. Fama e sucesso são diferentes. 

Nós já entendemos que você quer ser um rockstar, tocar pra estádios lotados e ver as pessoas tatuando o seu logo. Talvez isso realmente aconteça, e vai ser incrível! Mas se não acontecer, como você vai lidar com isso? Você se sente preparado pra frustrações, pra ouvir um monte de “não”s? Talvez seja hora de baixar um pouco a bola e tomar conta de si mesmo.

*Texto de autoria de Stephany Nusch [Inraza] para Rock de Boneca. Todos os direitos reservados.

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1 Comentários

  1. Show de bola! Acho que é interessante ouvir o que os ~grandes~ artistas têm a dizer sobre isso, pelo menos aqueles que falam da parte ruim e não apresentam só a boa. Tem muito sacrifício nesse meio que muitas pessoas não têm a menor capacidade de fazer - e tudo bem, ninguém precisa ir pelo mesmo caminho só porque o ídolo fez isso. Entender o contexto de cada situação, como cada oportunidade apareceu e a razão de nem ser justo se cobrar do mesmo "sucesso" também é importante. Os tempos mudam, as prioridades mudam, nem todo mundo pode se dar ao luxo de abrir mão de tudo e viver de música do dia pra noite, ainda que seja o sonho tocar pro estádio lotado.

    Cada um com seu cada um, e que a noção de sucesso consiga se adaptar ao que podemos fazer nas nossas parcas condições individuais.

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