Lacuna Coil se apresenta em SP; Cristinia Scabbia declara: "Não quero que essa noite acabe"



Após de outros três shows no Brasil (dois na região sul e outro em Brasília), no dia 15 de fevereiro, a banda italiana Lacuna Coil retorna à São Paulo no Carioca Clube depois de três anos, numa turnê para promoção do álbum "BLACK ANIMA"(outubro, 2019). Metaleiros estavam lutando com o calor enquanto concorriam ao melhor lugar na plateia, cuja fila começou a ser formada na noite anterior ao show e quando o dia clareou, não parou de crescer. A partir do entusiasmo das pessoas da fila - e da gritaria que foi quando a banda chegou para passar o som - já daria para deduzir a grandeza do show.

Durante às entrevistas de imprensa, a vocalista e compositora Cristina Scabbia, disse que a palavra "Anima" significava "Alma" em italiano, e que abordaria nesse álbum, mais uma vez, sentimentos negativos e obscuros que ela e os outros membros da banda haviam passado. Andrea Ferro, responsável pelos screams e pela voz masculina, disse que esse álbum nasceu de forma orgânica: eles haviam concluído que gostavam mais de tocar músicas mais pesadas no show, logo o álbum novo seguiria o mesmo caminho.

Apesar da turnê carregar o nome do novo álbum, o setlist não era exclusivo a ele. Devido ao recente aniversário 20 anos da banda - comemorado em um show gravado em Londres, onde foram tocadas músicas desde o início da banda -, setlist dessa turnê manteve alguma músicas mais antigas.

A banda de abertura "Uncured" enteou no palco pontualmente às 18h50 e realmente soube esquentar o público. Os estadunidenses deram um show de técnica e de energia durante todo o seu set de 50 minutos, com músicas rápidas e pesadas, cheias de momentos de interação com o público que não conhecia muito bem o som da banda. Houveram problemas técnicos, principalmente na guitarra, que eram trocado às pressas pelos técnicos que passavam de um lado para o outro correndo conforme o show acontecia, mas isso não interferiu no ânimo e na empolgação que os jovens irmãos vocalistas Rex e Zak Cox causaram no público.

O ponto alto do set foi o cover de “Roots Bloddy Roots” da banda Sepultura. Ao som dos primeiros acordes o público gritou o mais alto que podia. Era possível ver a felicidade nos olhos dos músicos.
A banda encerra seu set pontualmente as 19:40, dando 10 minutos aos técnicos e músicos de arrumarem seus equipamentos e montarem o que era necessário para o tão esperado headliner, Lacuna Coil.

Os momentos de espera entre a banda de abertura e a banda principal é um dos maiores prazeres de se ir ao show. Todos estão numa expectativa enorme, cochichando com o companheiro mais próximo qual música querem ouvir e contando sua história com a banda.

As 19h51 as luzes são apagadas e os músicos adentram ao palco. A gritaria que é seguida pelo início da música "Blood, Tears and Dust" é algo que só é encontrado em shows de metal com um público absolutamente fanático.

A entrada de Cristina Scabbia e Andrea Ferro foram aclamadas com gritos e os músicos responderam cantando de um jeito que você tem certeza que eles estão aproveitando cada nota, cada instante.

O público cantou todas as palavras da música do álbum Delirium, lançado em 2017. Até eu que não conhecia muito bem a letra me peguei tentando cantar os versos que eu conhecia.

A banda então sem pausa conecta o final da música de abertura com "Our Truths", um dos maiores sucessos da banda do álbum Karmacode. O público acompanhava cada nota da melodia em melisma que se repete conforme a música passa. Quando o verso do refrão "Trying to forget" entrou, tão alto foi o som que deve ter tremido as estruturas do Carioca Clube.

Com "Reckless" começam a aparecer as músicas do cd Black Anima. É importante dizer que esse CD foi muito bem recebido pela fanbase da banda, então quando finalmente tivemos o gostinho desse álbum ao vivo, a empolgação que vimos durante a primeira música - que não havia cessado - foi ainda mais elevada.

"My Demons" entra para mostrar a qualidade de Andrea como vocalista e intérprete. Suas expressões e movimentos mostravam toda a dor e guria que a música passa, sua voz estava absolutamente imaculada. Os versos "I feel fucked up today, my demons curse me as I'm awake" eram cantados pelo público como se eles mesmos tivessem escrito.
Essa música também mostra a incríveis sinergia que os vocalistas tem, com olhares, andares e momentos em que redirecionam a atenção do público um para o outro. Os 22 anos de carreira criaram uma sinergia de um jeito que eu imagino que um é capaz de ler a mente do outro.

"Layers of Time" do álbum mais recente mostra a aprovação do público ao álbum. Quando chegamos à estrofe "twisting, turning, through the baptism of fire..." dava para escutar o público acompanhando palavra por palavra as notas em stacatto.

"Downfall" foi o que mais se aproximou de uma balada no show - uma música mais devagar (em termos de Lacuna Coil). Serviu para permitir que o público recuperasse o fôlego para a pancada que veio logo depois com "The House of Shame" - uma música em que Cristina se mostrou uma vocalista que não arrega para os momentos épicos da música. As notas altíssimas do contraverso e do refrão foram projetadas em excelência, com uma intensidade que o público reconheceu e fez barulho em êxtase ao que tinha ouvido.

Lembra do fôlego que pegamos em Downfall? Ele teve que durar mais do que imaginávamos, quando após "The House of Shame" começou "Sword of Anger". "Sword of Anger" é a primeira música após a intro do CD Black Anima, então nem é preciso dizer que houve muita gritaria e barulheira por parte do público.
A banda toda respondia com sorriso e interpretações ferozes. Diego Cavallotti mesmo passando por problemas técnicos de guitarra estava dando tudo de si durante os solos. Maki, um dos membros fundadores, emanava carisma e felicidade pelo show inteiro. O membro mais novo da banda, o italiano Richard Meiz não deixou cair a peteca (ou a baqueta, desculpe a piada de tio) um momento, e sempre que tinha a oportunidade, levantava de seu banquinho para fazer um coração com as mãos para o público

"Heaven's a Lie" foi de longe o momento mais alto de todo o show. A música é o maior sucesso da banda e, pelo o que conversei após o show, fez parte da adolescência de quase todos os presentes. Só quem vai no show da banda da sua adolescência sabe quão prazeroso é escutar aquela música que faz parte da sua vida há mais tempo que você pensa. Sempre que os vocalistas jogavam o segundo verso do refrão para o público, não hesitávamos em gritar em plenos pulmões que "HEAVEN IS A LIE"

Em "Save me", Cristina começa a música falando sobre como devemos nos cuidar e compartilhar nossos problemas com nossos amigos, família, e que não devemos suprimir e guardar todos os sentimentos negativos que temos. Durante a música há uma estrofe recitativa sobre não desistir não importa quão difícil a situação esteja, que a vocalista recitou de forma perfeita. Nesse momento eu vi muitas lágrimas no rosto dos meus companheiros metaleiros. Só a pessoa sabe dos problemas que passa, e a vida costuma ser tão corrida que não há tempo para digerir o que nós mesmos sentimos.

Ver uma banda que você tanto admira te dar a oportunidade de refletir e sentir seus sentimentos, mesmo que no período de apenas uma música, é uma das razões que temos um público tão fiel para os shows de metal. Foi de fato um momento extremamente emocionante.

O cover da banda Depeche Mode em "Enjoy the Silence" marca o final da primeira metade do show.
Temos 10 minutos de intervalo, onde os dois vocalistas trocam suas roupas e colocam roupas conhecidas por fãs de outras eras.
A segunda parte do show temos as músicas da história da banda, como "A Current Obsession" e "When a dead man walks" do album Unleashed Memories. São músicas muito queridas pelos fãs e que não eram tocadas há muito tempo, pude ouvir comentários das pessoas ao meu redor falando "eu não estou acreditando que estou ouvindo essa música ao vivo".
A segunda metade do show pertenceu aos fãs mais antigos da banda. Músicas como "1:19" e "Soul into Hades" nunca haviam sido tocadas no Brasil, e a banda soube vender e apresentar essas músicas para os fãs novos com seu carisma e interpretação sempre emocionante e beirando a perfeição.

Não podendo faltar as músicas "Tight Rope" e "Comalies" do álbum "Comalies" - o álbum que levou a banda ao estrelato internacional - agitou os fãs e até mostrou que quando um brasileiro quer cantar a música junto com você, ele vai, não importa o idioma que seja. Devo dizer que o nosso italiano é aceitável!

Entrando na reta final do show, Cristina começa a falar sobre os relacionamentos tóxicos da nossa vida, seja relacionamento amoroso, uma amizade tóxica ou uma relação familiar que nos corroe. Essa prévia era para a música "Veneficium", a mais aclamada desse novo CD. Literalmente todos os fãs com quem eu conversei na fila estavam extremamente ansiosos para essa música.
Os primeiros versos são versos em latim, onde Cristina Scabbia canta com uma impostação lírica, parecida com o que ouvíamos no início do gênero do metal sinfônico. Eu preciso dizer que esse foi o melhor momento do show para mim, eu simplesmente não conseguia parar de bater cabeça e cantar o mais alto possível.
Quando a música chega ao verso

"There was a time
We looked down from the clouds
We climbed sky high
Thought that we would never fall"

Cristina atinge suas melhores notas no show inteiro. Só de lembrar desse momento eu fico arrepiado, foi algo que só quem estava presente foi capaz de sentir. Essa música é de fato uma das melhores da carreira da banda. A mensagem, o tempo, a variação de idioma, os vocalistas se intercalando, a ponte pra estrofe antes do último refrão - é uma música que não te deixa distrair por um momento sequer.

Logo após esse momento entramos na música final que possui uma mensagem extremamente positiva sobre continuar seguindo em frente. Como o nome mesmo diz, "Nothing stands in our way".
Sabendo que era a última música do show, o público voltou ao mesmo vigor da primeira música. Todos pularam e gritaram e deram o máximo de si.

O show foi extremamente especial e empolgante. Em vários momentos a plateia fazia o coral "LA CUNA COIL" e víamos como a banda ficavam com aquele sorriso bobo no rosto, sem acreditar como são amados nas nossas terras. Em vários momentos, Cristina disse "eu não quero sair daqui nunca!" "Eu não quero que essa noite acabe". A conexão que o público e a banda foram absolutamente únicos, e eles nos responderam dando um dos seus melhores shows.

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Por Guilherme Azevedo

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