[Estricnica] Ok então, vamos falar da Belishe


Conheci Billie Eilish em meados de 2018, quando ela já era A Billie Eilish. Um dos privilégios de ser professora de técnica vocal e dar aula para adolescente, é o universo que eles nos introduzem. Universo a qual, eu que sempre me orgulhei de ser uma jovem idosa, jamais seria apresentada de outra forma. É sim um privilégio se comunicar com essa geração, saber seus gostos, seus pontos de vista, o que pensam, o que almejam. Muitos dos meus alunos tinham mais a me ensinar do que eu a eles. Essa troca é o que eu mais amo e valorizo nas relações humanas, por isso eu jamais conseguiria fazer outra coisa a não ser ser Artista e professora.

Um dos meus alunos, de 15 anos na época, escolheu a música "Lovely" (um feat do cantor Khalid com a mocinha que é o assunto do texto) para cantar num festival da escola, e eu tinha a missão de ajudá-lo tecnicamente (voz e performance) nessa empreitada. Eu adorei a música de cara, e ele, já empolgado, começou a me mostrar outras músicas do mesmo cenário, algumas de outros artistas e outras da própria Billie. 

Jamais eu iria descobrir que havia uma cena enorme e incrível de indie-pop no youtube. Uma molecada de 15, 16, 17 anos falando sobre temas mega pertinentes, em músicas mais ou menos elaboradas com aquele tom dark e melancólico que eu amo, todas feitas no computador com alguns elementos orgânicos. Sem falar da estética visual. As cores, as fontes, a iluminação. Tudo de um bom gosto absurdo! Os adolescentes de hoje já crescem com um senso estético e artístico que eu só fui ter algum contato na faculdade! Vejo as coisas feitas quando eu era adolescente, e hoje reconheço como quase tudo já era de extremo mau gosto naquela época, mas a gente achava o máximo.

Billie Eilish é cantora e compositora, começou sua carreira oficialmente em 2016 com o single "Ocean Eyes" e desde então, ela vem lançando vários singles em parceria com seu irmão Finneas, que também é seu produtor, back vocal, e a acompanha nas performances ao vivo, como visto na cerimônia do último Oscar. Não vou me demorar sobre isso, mas pesquisem vídeos do making-off do álbum pra vocês verem que o cara não é qualquer coisa.

Em 2019, lança seu primeiro álbum de título "When we all fall asleep where do we go", escrito, produzido pela dupla de irmãos, foi gravado em um home studio em sua casa. O álbum tem uma sonoridade esquisita e claramente vanguardista, com vocais sussurrados e graves, o oposto do que conhecemos da indústria das divas pop e dos ídolos teen da Disney, mas ainda sim, é extremamente cativante e, porque não, pop. Além disso Billie tem um visual que foge totalmente da dicotomia "virgem/dominatrix" e da adultização que domina a indústria há anos. Usa corrrentes, roupas largas, cabelo colorido, tem um ar debochado e irreverente e assume sua rebeldia e estilo adolescente.

Sendo bem recebido pela crítica especializada, estreou no topo da Billboard e conseguiu ser número 1 em países como Reino Unido, Canadá e Austrália. O sucesso do álbum foi impulsionado pela faixa "Bad Guy", hoje a mais conhecida de, que além de colocá-la no topo de todas as paradas dos Estados Unidos, lhe rendeu também o Grammy de canção do ano em 2020 [foto do topo].

Aliás, não satisfeita em chegar ao topo com um álbum avant-garde gravado em casa, Billie ousou ser a artista mais jovem a ser indicada em 6 das categorias principais da maior premiação musical do mundo. E ainda conseguiu levar 5 grammys pra casa: Canção do Ano, Álbum do ano, Gravação do Ano, Artista Revelação e Melhor Performance Solo. Tudo isso desobedecendo as regras da indústria e fazendo seu próprio caminho. Quão importante isso é para nós como artistas independentes?

Billie e seu irmão Finneas na última cerimônia do Oscar

Apesar disso, nas últimas semanas vi frases e textos contendo os mais variados tipos de insultos à jovem recordista. Aparentemente, quando se é uma garota que trabalha com um público jovem, você nunca vai ser suficientemente boa ou digna de reconhecimento. Sua voz, suas roupas, suas letras. Nada é bom o suficiente para os "supremacistas do bom gosto" (beijos Fernanda Lira <3). Tudo o que é "teen", é automaticamente um lixo. O que os adolescentes dos anos 80 curtiam é que é bom. E não estou falando só de boomer não viu? Tem uma boa galera de vinte e poucos aderindo a esse discurso.

Deixa eu te contar um segredo: 

Achar que tudo o que VOCÊ gosta é bom só porque VOCÊ gosta, é tão egocêntrico quanto achar que tudo o que VOCÊ não gosta é ruim só porque VOCÊ não gosta.
O conceito de Arte e qualidade artística é discutido há séculos e faz parte do nosso crescimento quanto sociedade. O tipo de arte que consumimos, conta nossa história. Um artista pode não dizer nada, pode refletir seu tempo, mas também pode apontar pro futuro, e sua visão e discurso dizem muito sobre o tipo de arte que ele produz. Isso não vai mudar só porque o floquinho de neve não aceita ser contrariado.
Contexto, referência e critério. Toda Arte pode ser analisada a partir disso, e tá tudo bem gostar de algo que não é considerado bom quando isso significa algo pra você. Essa é a beleza da Arte, estabelecer conexões.
Não estou dizendo que no final das contas existe uma única verdade absoluta, porque o tempo revela muita coisa também, mas essa história de que tudo é relativo também não é o melhor caminho.
Qualidade e relevância existem, você gostando ou não.



Dito isto, afirmo com todas as letras que Billie Eilish é um fenômeno, vocês gostem ou não. Ela é uma artista de menos de vinte anos que é recordista, talentosíssima e ainda tem toda uma carreira pela frente. Espero ansiosamente para o dia que ela fizer uma apresentação que vai calar a boca dessa galera atrasada e redutiva. Mas se isso não acontecer - porque ela não precisa provar nada pra ninguém -, ainda assim é um fenômeno.

Que tenhamos cada vez mais "Billies Eilishes" fazendo arte que provoca, que aponta pra frente, feito por artistas que criam suas próprias regras e conquistam as massas, abrindo caminho para a diversidade e autenticidade. De cópia da cópia, o mundo já esta cheio.

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