Andressa Lé [Anfear] fala sobre o single "Iara" e sua relação com o Folclore brasileiro


A ANFEAR é uma banda autoral de São Paulo, que compõe canções sobre história, literatura e folclore do Brasil. Com músicas em português e inglês, buscam mostrar a riqueza da nossa cultura para o mundo. A musicalidade da banda é uma mistura de estilos entre o rock/metal melódico, com influências de estilos musicais brasileiros e vocal feminino.

Na última sexta-feira (7), a banda lançou o tão aguardado single "Iara", divulgado há meses nas redes sociais da banda, e a vocalista e uma das principais compositoras da banda, Andressa Lé, concedeu uma entrevista exclusiva, falando sobre sua infância, sua relação com o folclore brasileiro e suas principais influências.

RckdB: Olá Andressa, tudo bem? Muito obrigada por ceder um tempinho pra conversar com a gente. Poderia começar falando um pouco sobre suas maiores referências e inspirações musicais?

Andressa: Primeiramente quero agradecer à Rock de Boneca pela oportunidade. Bom, essa é uma pergunta que eu prefiro voltar ao início da minha vida pra responder, porque eu não passei a infância ouvindo rock, eu cresci ouvindo música sertaneja, canções do pop internacional, MPB e músicas religiosas.

Sendo assim, Xuxa e Sandy foram as minhas primeiras referências, depois vieram a Celine Dion e a Whitney Houston no pop, e na MPB a Ana Carolina e eu achava o máximo ela estar cantando e tocando ao mesmo tempo, o que me motivou a desenvolver algum instrumento também.

E além das mulheres do metal eu estudei e me encantei pela Elis Regina e a Cássia Eller com toda aquela energia, a Clara Nunes com aquele vozeirão, a Mônica Salmaso com a sua afinação excepcional, a Floor Jansen que é uma mulher incrível, com sua voz e toda sua atitude no palco. Quando entrei de cabeça na música também comecei a admirar profissionais próximas de mim, cantoras incríveis como a Gabi Albuquerque, Alba Brito, Tici Schirm, Bia Doxum, Yasmin Oli...

RckdB: E quando você começou a ouvir rock mais propriamente?

Andressa: O meu primeiro contato com rock foi pelos meus pais que curtiam alguns sucessos do Led Zeppelin, Scorpions e Beatles, mas eu já era maiorzinha quando algumas bandas invadiram a minha vida me trazendo toda a curiosidade pelo universo do rock e do metal.

Como na igreja eu cantava e já tocava percussão, fui aprender a tocar bateria, o primeiro instrumento que me dispus a estudar e a partir daí fui contagiada pelo rock quando comecei a tocar Iron Maiden. Então conheci The White Stripes com a Meg White na batera, veio Evanescence com a Amy Lee no vocal e Nightwish com a Tarja no vocal... E quando conheci meu parceiro, o Nan vieram Kamelot, Helloween, Epica, Lacuna Coil, Within Temptation, Tristania, Avantasia e outras bandas com vocais que me fizeram perceber e me incentivaram a buscar investir no que eu mais amava fazer: cantar.

RckdB: Qual sua relação com o folclore brasileiro e porque vocês escolheram explorar essa temática nos novos trabalhos?

Andressa: Eu sempre fui apaixonada pelo folclore, desde criança, os meus livros favoritos eram os de folclore brasileiro e de “Descobrimento” do Brasil. A minha paixão por sereias começou com a Iara dos livros, e foi regada por filmes americanos como o “Splash, uma sereia em minha vida” e daí nunca mais me curei dessa febre. Lembro que a minha mãe até costurou uma cauda de sereia com calças de lã, pra eu e minha irmã usarmos dentro da nossa piscininha de plástico, tenho até fotos reveladas dessa época das quais tenho muito orgulho (risos) [foto ao lado].

Já no ensino fundamental, na biblioteca da escola, eu lembro de uma coleção grande de livros de capa dura que traziam lendas de todos os estados brasileiros, cada semana eu escolhia um estado pra ler sobre, e naquela época ninguém tinha computador, os livros eram a nossa principal janela para se aprofundar nos assuntos que nos interessavam.

RckdB: Então a Anfear tem ligação com o folclore desde o começo. Como foi a formação da banda?

Andressa: Isso! Quando eu fui para o ensino médio, eu tive um projeto de final de ano e resolvi fazer três canções, cada uma delas falava de uma obra de literatura que deveria ser lida para as provas de vestibular, foram minhas primeiras canções.

No técnico conheci o meu parceiro, o Nan Marconato, e nós montamos um projeto a partir da ideia dessas três músicas que eu tinha e mais algumas composições dele, e pensamos: porque não falar de folclore também? E depois de algumas gravações caseiras e com algumas idéias, entre elas a letra e melodia da canção “Lady of the Rivers”, nascia a Anfear.

Inicialmente nossa primeira abordagem foi com o pilar “história” com o EP Plays of Destiny que era uma canção sobre um romance ambientado na Guerra dos Farrapos. Depois foi com o pilar “literatura” com o single Iracema que também fala da lenda do Ceará. E agora só faltava o pilar do “folclore” que estamos entregando com o single Iara, uma versão em português da canção “Lady of The Rivers” que já havíamos lançado no EP Plays Of Destiny.

RckdB: Você também é percussionista, como foram as gravações da percussão das novas músicas? Pode contar um pouco dos instrumentos que vocês escolheram usar?

Andressa: Claro. Enquanto estávamos trabalhando no single “Iara”, decidimos fazer um Sarau de Compositores no nosso estúdio, o LéM7 Studio, então convidamos alguns amigos artistas para compor o sarau e com a nossa nova formação em trio, decidimos criar algumas versões acústicas de algumas músicas do repertório de shows da Anfear para apresentar também. As versões acústicas também fizeram sucesso com o público então nós decidimos gravar mais esta versão da música Iara para lançar no single.

A canção precisou de um arranjo completamente diferente para levar da sonoridade pesada do metal aos violões, inicialmente pensamos em um só instrumento de percussão como o cajon. Mas eu e o Nan Marcontado, fundador, compositor e baixista da banda - entre outras funções-, numa reunião com Caio Balestra, nosso guitarrista e produtor musical - entre outras funções também-, decidimos que a música teria um trabalho mais completo de percussão e durante a pré-produção nós fomos experimentando tudo que tínhamos disponível na LéM7 Studio (nossa batcaverna) como ganzás, um pequeno tambor chocalho baiano e também utilizamos alguns instrumentos latinos emprestados como o pau-de-chuva e o bumbo leguero do Diego Ochs, o qual tivemos o prazer de produzir um trabalho musical também. Eu manipulava os instrumentos, tocando enquanto o Caio e o Nan ficavam na outra sala opinando e dando ideias muito bacanas, e assim nós fomos construindo todo o trabalho percussivo da Iara.



RckdB: Vocês costumavam fazer músicas em inglês e agora mudaram para português. Tem alguma razão específica para essa decisão?

Andressa: Quando a Anfear nasceu, a primeira ideia era contar nossas histórias e mostrar a nossa cultura brasileira para o mundo com letras em inglês e algumas em português. E foi nessa época que lançamos o nosso EP Plays Of Destiny.

Em 2018 nós lançamos o single Iracema, que já nasceu com a letra em português, e o destaque do trabalho foi muito maior tanto nas redes sociais quanto ao vivo, desde os shows ela já era uma música muito pedida e querida pelo público e até hoje a canção vem atingindo novos fãs e nos surpreendendo com sua ascensão. Isso nos fez perceber a importância de se comunicar em português e de focar nas pessoas ao nosso redor criando raízes mais fortes. E com o tempo e a maturidade no trabalho da banda, nós sentimos a necessidade de escrever mais letras em português para que a mensagem seja mais direta e focada no público brasileiro.

RckdB: Como tem sido o processo de composição da Anfear atualmente como um trio?

Andressa: Depende. Algumas vezes o Nan pegava o violão e cantarolava alguma melodia, eu continuava cantarolando e ia encaixando alguma letra, a gente escolhia um tema pra escrever e depois se aprofundava na pesquisa para deixar a ideia pronta daquela canção para depois vesti-la com um arranjo de banda mais tarde.

Outras vezes eu levava alguma melodia pronta com alguma letra e o Nan me ajudava a terminar e ele fazia a harmonia e já trazia ideias de arranjo escritas na partitura para os instrumentos executarem. E quando o Caio se uniu à nós ele também começou a arranjar e trazer suas ideias para as músicas que vinham surgindo. No geral o processo de composição da banda continua parecido, mas o processo de arranjo passou por algumas alterações.

Antes com uma formação maior, era um pouco diferente. Agora que somos em três, o Caio assumiu a função de produtor musical, eu e o Nan, estamos como co-produtores, sempre avaliando e dando sugestões e ideias e o Caio organiza tudo isso pra gente, finalizando o processo com suas ideias também. Nós estamos trabalhando o arranjo das músicas novas e de algumas que já tínhamos a fim de melhorar o que precisa para gravação, tanto do single que fizemos, quanto do álbum que estamos fazendo.





RckdB: O que os fãs podem esperar da Anfear em 2020?

Andressa: Temos algumas surpresas para 2020 e confesso que esses dois últimos anos tem sido um grande exercício para lidar com a minha ansiedade. Mas ao mesmo tempo estamos mais assertivos e mais seguros do que queremos, o que faz toda a diferença no momento de tomar decisões importantes com relação à projetos, shows e gravações.

Dentro do que eu posso revelar, digo que 2020 vai ser um ano de muito trabalho de produção, mais do que shows, vamos manter esse foco pois queremos gravar e lançar nosso álbum completo que conterá músicas que o público já conhece e algumas músicas inéditas. 

Nós três somos muito criativos e ao mesmo tempo temos ideias muito diferentes, a discussão faz parte do dia-a-dia da banda mas delas surgem caminhos inesperados. É um processo que se tornou mais leve e prazeroso agora com as funções bem definidas e vamos procurar dividir esse processo com o público, o que tem sido muito gratificante até agora com a produção do clipe Iara, pois não estamos sofrendo do coração sozinhos (risos). 

RckdB: Muito obrigada Andressa, estamos ansiosos pra saber o que vem por aí!

Andressa: Eu que agradeço! Queria citar também algumas vocalistas com bandas e trabalhosos maravilhosos que tive o prazer de ter contato, como Grazy Mesquita, Deze Rezende, Vivs Takahashi, Nina Furtado, Stephany Nusch, Naimi Stephanie, Lais Tomaz e tantas outras queridas que venho conhecendo ao longo da minha caminhada.
Todas essas pessoas estão ou foram tão presentes no meu dia-a-dia, seja pelas realizações no palco ou nos bastidores da vida, a garra e a vontade de fazer acontecer, que eu tenho orgulho de citar como inspiração.
É bom dividir tudo isso com as pessoas, afinal é pra isso que fazemos música: para compartilhar.

Confira o clipe de Iara:



Entrevista feita no dia 3 de fevereiro de 2020, todos os direitos reservados ao Rock de Boneca.





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